Da estreia indígena à muçulmana (e não só): Tsunami azul nas urnas de EUA
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A onda - ou tsunami - azul que os democratas deixaram esta semana no Congresso dos Estados Unidos continua a ser analisada, com vários senadores a destacarem-se. Note-se que os resultados finais podem demorar vários dias a ficarem fechados, mas as perspectivas foram, desde o dia da votação, terça-feira, de boas notícias para os democratas - e de desilusão para o Partido Republicano, o de Donald Trump.
Entre esta onda azul, há alguns casos que começaram desde logo a destacar-se. Abaixo, ficam alguns exemplos.
Nesta ida às urnas, foi alcançado um marco histórico em termos de representatividade em cargos públicos nos EUA, com, por exemplo, a eleição, pela primeira vez, de candidatos transgénero em seis estados do país.
Trump atacou transgénero (e agora votou-se na representatividade)
Na Geórgia, Bentley Hudgins, que se identifica como uma pessoa não binária dentro do espetro transgénero, conquistou para os democratas o distrito 90 da Câmara dos Representantes (câmara baixa do Congresso) estadual, após ter vencido, com 92,5% dos votos, a republicana Samantha Boston.
Com um historial como defensora dos direitos humanos, entre as prioridades da democrata destaca-se a vontade de travar os "ataques" de Trump, e dos republicanos contra os residentes do seu estado. Recorde-se que durante a sua campanha presidencial de 2024, Trump prometeu acabar com o que classifica como o "delírio transgénero" - tendo assinado, logo no dia da sua tomada de posse, um decreto estabelecendo que a sua administração passaria a reconhecer a existência de apenas "dois sexos, masculino e feminino", definidos à nascença.
Outra democrata, Allison Montgomery, conquistou no Alabama o lugar do 25.º distrito estadual, derrotando o republicano Phillip Rigsby, o que representou uma das três reviravoltas eleitorais no norte do estado, que ficou azul (cor do Partido Democrata) nestas eleições legislativas. Montgomery tinha sido alvo de críticas por parte do presidente do Partido Republicano do Alabama, Scott Stadthagen, durante a campanha eleitoral, quando este se referiu a Montgomery e a outra candidata democrata transgénero como "homens com perturbações mentais".
Quinnie Pérez, de ascendência mexicana, fez também história na Florida, e também no Michigan, Washington e Wisconsin os eleitores escolheram a representatividade.
Já no Texas, James Talarico tornou-se o 1.º democrata eleito como senador nos últimos 40 anos. Note-se que o democrata tinha, inclusive, o apoio de Neil Bush, filho do ex-presidente George H.W. Bush (1989-1993) e irmão do também ex-presidente George W. Bush (2001-2009). Talarico era ainda apoiado por Wayne Thorburn, ex-diretor executivo do Partido Republicano do Texas.
Talarico é um seminarista presbiteriano e ex-professor e foi dito pelos apoiantes acima que possuía os valores adequados para representar o Texas no Senado.
Já a candidata democrata Annie Andrews, pediatra, venceu a corrida ao Senado na Carolina do Sul, segundo projeções avançaram desde logo. A democrata apresentou-se como uma defensora do acesso aos cuidados de saúde.
As estreias em vários estados
A representatividade continua noutros estados e noutros setores, com, por exemplo, o democrata Aaron Ford a ganhar as eleições para governador do Nevada, tornando-se o primeiro afro-americano a liderar o estado, que é considerado decisivo nas eleições presidenciais.
"Esta campanha não aconteceu por acaso. Aconteceu graças à fé, à família, ao trabalho árduo e porque as pessoas do Nevada decidiram que os nossos melhores dias ainda estão para vir", afirmou Ford, durante uma celebração eleitoral democrata na terça-feira.
Também no Minnesota foi feita história, com a democrata Peggy Flanagan a tornar-se a primeira senadora indígena na história dos EUA, segundo as projeções desde logo conhecidas. Flanagan defende, entre outras questões, um sistema de saúde pública universal, o fim da venda de armas a Israel e a qualificação das ações deste país na Faixa de Gaza como genocídio.
No Michigan, Abdul El-Sayed torna-se também o primeiro muçulmano dos EUA. Ao longo do ciclo eleitoral, os republicanos tentaram demonizar El-Sayed, que nasceu nos EUA depois de os seus pais terem imigrado do Egito. As críticas vieram, inclusive, de Donald Trump, que o chamou repetidamente de "jihadista" e acusou-o de estar "do lado dos terroristas".
Esta vitória foi assinalada, entre outros, pelo autarca de Nova Iorque, Zohran Mamdan, que apontou que "era importantíssima para muita gente".
A onda democrata afastou, no entanto, o lusodescendente David Valadão, que perdeu a reeleição para a Câmara dos Representantes na onda democrata das eleições intercalares, derrotado por Randy Villegas no 22.º distrito da Califórnia. Já o lusodescendente democrata Jim Costa foi reeleito para o Congresso dos EUA.
O primo de Luigi Mangione
O apelido Mangione voltou a ser destaque esta semana, desta vez em Baltimore. É que, recorde-se, o nome fez correr tinta quando, em dezembro de 2024, um homem chamado Luigi Mangione matou a tiro Brian Thompson, o CEO da UnitedHealthCare, em Manhattan, Nova Iorque. Mangione conseguiu escapar, mas acabou por ser apanhado e o julgamento decorre agora - tendo mesmo a pena de morte sido uma possibilidade, entretanto descartada.
Mas voltando a esta semana, o apelido é agora falado por melhores motivos, com Nino Mangione, primo de Luigi, a vencer as eleições locais de Baltimore, que coincidiram com as intercalares. O republicano disputava um lugar no Distrito 5 do Conselho do Condado de Baltimore.
De acordo com a imprensa norte-americana, durante a campanha, Nino Mangione prometeu apoiar as forças policiais e punições mais duras para os criminosos. "Criminosos violentos devem ser condenados à pena máxima, mostrando aos reincidentes que as suas ações não serão mais toleradas", aponta, enquanto promessa, no seu site de campanha.
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