Acampada de Lisboa canta e dança em dia sem polícia

...


                    Acampada de Lisboa canta e dança em dia sem polícia
Acampada de Lisboa canta e dança em dia sem polícia (Foto: Reprodução)

Os manifestantes da acampada de Lisboa pela habitação concentrados esta noite no centro da capital cantaram, dançaram e gritaram palavras de ordem contra o Governo, num dia marcado pela ausência total da polícia.

 

Depois das recentes cargas policiais e destruição de tendas a quarta-feira foi marcada pela tranquilidade e na Praça D. Pedro IV (Rossio). Do lado voltado para o teatro D. Maria, onde estão montadas cerca de 60 tendas, o final da tarde foi sereno, alguns "moradores" sentados à porta a conversar, outros de telemóvel na mão, outros a pintar, alguns de pé.

Mais barulho quando se ligaram os microfones para a habitual assembleia popular, gritos e palmas quando carros que passavam buzinavam. E quando de um lado se apresentavam e votavam propostas e se alertava para a chuva, do outro lado, Paulo, o voluntário de serviço na zona de informações não parava.

"Aceitam doações em numerário?", "Onde é que há mais iniciativas como esta?", "Como posso ajudar?", e ele respondia, anotava num caderno as coordenadas dos futuros voluntários, recebia donativos também. Atrás dele alguns sacos-cama e colchões para tendas, agora que o frio chegou e a chuva está para chegar.

À lusa explica que todas as ajudas são bem-vindas, que são todas aceites, e garante que chegam de homens e mulheres, jovens e menos jovens. Trazem dinheiro, alimentos, bebidas, objetos como sacos cama, como constatou a Lusa. Ou trazem apenas um nome, um contacto e a vontade de ajudar.

Ao mesmo tempo a assembleia popular aprovou propostas, uma delas a de participar no domingo na manifestação contra a construção de um hotel no quartel da Graça, em Lisboa.

E gritou-se que a luta pela habitação é não apenas dos portugueses mas também de quem vive e trabalha em Portugal, numa crítica a declarações do secretário de Estado Rui Armindo Freitas, que disse que estrangeiros que participem em manifestações e não cumpram a lei podem ficar sem autorização de residência.

Na noite de quarta-feira as "mães da acampada" subiram também ao palco a desafiar os presentes para uma vigília na quinta-feira na praça dos Restauradores, durante uma hora (19h00, mesma hora no Porto), em protesto pela violência policial.

Num dia sem polícias foram poucas as referências às forças de segurança nas intervenções, uma ou outra depois durante o período musical da noite, a cargo primeiro de Gregory Ras, G Ras, um músico de reggae, de origem húngara e um ativista social que vive em Portugal, e depois com Juana Na Rap, Joana Santos, uma rapper portuguesa, do Monte da Caparica, que canta em crioulo, autora do álbum "Sob pressão", já deste ano.

E também MJ Soul Jah, na verdade Luís Semedo Mendes, de Lisboa, filho de pais cabo verdianos, autor do álbum "Sukundi na Undi", que vem do mundo da música de intervenção e da poesia.

E quando no final se passou a música "Grândola vila morena" do outro lado da estátua já muitos estavam nas suas tendas, alguns na conversa com os "vizinhos" da frente.

Os atuais protestos contra a crise na habitação tiveram início no Porto a 10 de outubro e expandiram-se a Lisboa, mas já motivaram também concentrações noutras cidades.

A intervenção da PSP para dispersar as acampadas e retirar as tendas no Rossio, em Lisboa, e na Praça D. João I, no Porto, culminou em cargas policiais e arremesso de objetos, provocando mais de duas dezenas de feridos entre manifestantes e polícias.

Os manifestantes exigem, entre outras coisas, a reversão da nova lei do arrendamento, um travão à aquisição de habitação por parte dos fundos imobiliários e tetos "verdadeiramente acessíveis" à renda.

Leia Também: Acampada de Lisboa cancela ida ao Pátio das Quintinhas